9 de março de 2009

O hardware em 'código aberto'

Imagine se a Coca-Cola publicasse a fórmula do refrigerante na web e desse permissão a qualquer empresa para fabricá-lo. Foi mais ou menos isso o que fez a Arduino, companhia com sede na Itália e fãs em muitos países. Inspirada na turma do software livre, a empresa liberou todos os seus projetos de engenharia na web. Em 2008, vendeu dezenas de milhares de placas de controle a estudantes e projetistas do mundo inteiro. Elas vêm sendo usadas para construir desde luminárias inteligentes até aviões que se autopilotam. David Mellis, um dos fundadores da Arduino, fala sobre a nova onda do hardware livre.
Raphaelzinho Alves - Por que vocês decidiram projetar hardware de código aberto?

Mellis - Nós queríamos que outras pessoas estendessem a plataforma para adequá-la às suas necessidades. Para isso, elas deveriam ter acesso ao código-fonte do software e ao projeto do hardware. Além disso, como era uma plataforma nova, ser de código aberto deu confiança às pessoas. Elas sabiam que poderiam continuar expandindo a plataforma mesmo que o desenvolvedor original desistisse dela.

Que outras vantagens o código aberto traz ao hardware?
Uma vantagem é a possibilidade de adaptar o modelo de negócios e o fornecimento a diferentes situações. Outras empresas podem vender kits para a montagem de dispositivos compatíveis com Arduino, por exemplo. Também podem redesenhar os produtos para trabalhar com componentes que são mais baratos e fáceis de conseguir em seus países. Um exemplo de produto derivado das placas Arduino que atende a um uso específico é a ArduPilot, placa de código aberto para navegação autônoma em aeronaves.

Que tipo de contribuição ao projeto vocês receberam de outras pessoas?

Muitas pessoas têm desenhado novas placas com base nos projetos anteriores. A LilyPad, criada pela pesquisadora Leah Buechley e pela empresa SparkFun, por exemplo, foi projetada para uso em roupas e acessórios de vestuário. É uma ótima adaptação da Arduino original, e uma que nós provavelmente nunca teríamos desenvolvido.


O software vem sendo aperfeiçoado por voluntários?

Sim. Voluntários têm contribuído muito. Eles escreveram bibliotecas de programas que permitem às placas trabalhar com diferentes tipos de hardware e de lógica. Também ajudaram a reescrever funções básicas do sistema e atualizaram o ambiente de desenvolvimento, entre outras coisas.

Como vocês competem com outras empresas que fabricam as placas Arduino?

Nem sempre é uma competição. Procuramos trabalhar com pessoas e empresas que têm ideias para novas placas, como a SparkFun, que criou a LilyPad, e a Gravitech, criadora da Arduino Nano. Também tentamos cobrar um preço justo pelos produtos. Assim, não é fácil torná-los ainda mais baratos. Além disso, as pessoas gostam da Arduino. Elas procuram nos apoiar comprando produtos oficiais.

O hardware de código aberto vai se sustentar no longo prazo?

Acho que sim. De certa forma, não é diferente de outros negócios. Temos de fazer um produto que as pessoas queiram e vendê-lo por um preço justo. Trabalhar com o código aberto nos mantém honestos, já que sempre haverá alguém para nos substituir se tentarmos explorar os clientes. Se fizermos um bom trabalho, não vamos deixar de ser bem- sucedidos só porque os concorrentes têm nossos arquivos de projetos.

O modelo de negócio de vocês vem sendo imitado por outras empresas?

Sim. A Adafruit, da artista e engenheira Limor Fried, é um exemplo. Ela desenha produtos interessantes de código aberto, incluindo alguns compatíveis com dispositivos Arduino. Limor trabalha em parceria com outras empresas, que fabricam e vendem esses projetos.

Produtos de consumo, como televisores, poderão ter código aberto no futuro?

É possível que sim. Já existe um celular de código aberto, o OpenMoko. À medida que os componentes eletrônicos e o processo de fabricação se tornarem baratos, mais e mais equipamentos complexos vão, provavelmente, se tornar open-source.
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